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Devaneios

Tenho uma banda autoral, e agora?

Fonte: heavynrollmessenger

Como está o som autoral de Caxias do Sul?

Existem espaços suficientes e para todos os estilos?

O que as bandas devem fazer para conseguir seu espaço?

O que os músicos e donos de bares pensam disso?

É o que vamos descobrir agora nesta matéria, onde abordaremos este assunto que vem crescendo cada vez mais entre os músicos de Caxias.

A nossa cena musical vem crescendo muito nos últimos anos, surgindo muitas bandas e músicos de qualidade que tentam conseguir seu lugar ao sol em uma região de muita concorrência e poucas opções.

Em uma recente enquete realizada pelo Blog 47% afirmaram não haver espaço para a música autoral e 32% que até existe, mas para alguns estilos. O restante acha que o cover ainda impera (12%) e que há espaço (8%). Por que isso?

Muitas ferramentas foram criadas pela nossa Secretaria de Cultura afim de alavancar a diversidade cultural de Caxias, como o Financiarte que já contemplou centenas (ou milhares) de trabalhos de diversos segmentos da arte, inclusive a comunidade musical que, com certeza, foi a que mais se beneficiou com este recurso, haja vista a mão-na-roda com o custeio de obras musicais que se tornariam muito caras para bandas de garagem, ou independentes, e que tem a oportunidade de eternizar seu trabalho no mais alto nível de qualidade. A abertura de alguns bares alternativos e temáticos, além de novas casas de Cultura e a revitalização do largo da estação Férrea que está se tornando uma referência cultural de Caxias do Sul.

Para nós ter-mos uma boa base de raciocínio enviamos um mesmo questionário para muitos músicos e donos de bares da cidade, com algumas perguntas diferenciadas para cada caso. O texto a seguir segue o foco diretamente na opinião de quem respondeu este questionário. E para começar vamos ver como está a cena autoral de Caxias:

Segundo Niuton Paganella (Hammer 67/Ac/Dc Cover/Pantera Cover) ”A cena praticamente não existe. Tem muita banda boa com trabalho consistente e não tem como levar a frente o trabalho porque não existe oportunidade para tocar, divulgar o trabalho, etc. Isto não é um problema só da cidade, é da natureza cultural do Brasil mesmo, tem que buscar oportunidades fora se quiser viver de música de uma maneira honrosa.”

Ainda falando sobre essa cena autoral Caxiense, César Branco (Fighter) diz que “Caxias do Sul sempre foi uma cidade de músicos talentosíssimos. Admiro as bandas que dão o "sangue" pelo trabalho próprio, e que alguma forma batalham por sua divulgação a fim de conquistar o seu espaço e público. No meu ver, por ter pouco espaço para tocar, vejo a cena de bandas autorais muito fraca.” Já Breno Dallas (Pindorália) é mais otimista “A quantidade de bandas com trabalho autoral (e de qualidade) aumentou consideravelmente em Caxias, e isto de certa forma já pede que haja um espaço reservado a elas. Ainda é difícil que os bares estejam dispostos a destinar noites exclusivamente à musica autoral produzida na cidade, uma vez que correm o risco de que poucos apareçam, que a noite "não renda o necessário". Mas alguns espaços estão se abrindo, bares e casas de show começam a mostrar agendas com maior espaço para a música autoral - talvez seja um início.”

Este é o caso do Vagão Bar, onde vemos uma agenda recheada de bandas autorais, não só da cidade, mas de fora também. Mas a assessoria do bar é bem realista neste sentido “A programação do Vagão é de maioria autoral, no entanto, nem todas as bandas possuem público suficiente para garantir "casa cheia" por isso o bar vem optando em garantir com que algumas bandas abram shows de grandes atrações tentando assim ampliar seu público.” E isso corrobora com a opinião de Anderson Aguzzoli (Álgida), “A atitude é ótima, entretanto muitas vezes falta público para ouvi-las... acho que existem várias bandas interessantes na cidade e que fazem um trabalho de qualidade e é interessante que isso perdure, porque muitas vezes sinto que bons projetos terminam precocemente.”

Outro fato que merece destaque, é que, bandas autorais são colocadas freqüentemente juntas em festivais em dias anormais como quintas-feiras, domingos e até segundas-feiras. Pra piorar, estes eventos não geram, muitas vezes, qualquer remuneração para a banda, demonstrando, a nosso ver, uma inversão de valores, já que bandas autorais são as que mais tiram dinheiro do bolso para se manter na ativa. Para Bruno Machado (Anaxes) “Um pouco da culpa é do desinteresse do próprio público. Já tivemos vários eventos voltados para a música autoral e a maioria foi bem fraco em relação ao público. Então deve ser por isso que os bares disponibilizam esses dias para as bandas autorais.” “O publico prefere fazer a sua festa ouvindo as confirmadas, seja num show de cover ou com som mecânico. Os donos de bar sabem disso e como o que eles querem é vender trago, a coisa não muda.” Diz Paganella. ”Tem gente que acha que deixar o músico tocar já é um baita incentivo!!! Hehehehehe tem que rir pra não chorar! Mas o maior problema é que um show apenas de música autoral, dificilmente atrairia um publico representativo como um show de cover (a não ser que seja feita uma boa divulgação em cima do material da banda).” emenda João Galimberti (Agente Ed).

César Branco faz uma consideração interessante, ele diz que “Pode-se dizer que SIM é uma inversão de valores. Mas, também é verdade que muitas bandas não dão valor merecido á suas obras. Tocam de graça e por vezes até em troca de cerveja. É muito importante, mesmo em meio a um festival de música própria com várias bandas, APARECER e mostrar o trabalho e a proposta de alguma forma. Porém, essas propostas de pgtos aceitas por algumas bandas, com o tempo, facilitaram as negociações para os donos de bares. Por isso, hoje, os cachês estão tão baixos ou resumidos a nada (infelizmente).”

“Eu nunca me importei em não ganhar para tocar, mesmo porque em minha modesta carreira foi poucas as vezes que vi um cachê em minhas mãos tocando som próprio, era mais pela divulgação em si. Bandas de música autoral sempre sofreram certa relutância dos bares, ainda mais quando é num estilo mais pesado. Uma das alternativas sempre foram os festivais particulares que às vezes dava mais prejuízo que lucro.” Diz Marco Paim (Enemywork/The True/After Dark). Breno Dallas exemplifica por experiência que “Depende do tipo de festival. Temos o Manifestasol, que é um movimento autogerido sem fins lucrativos, e que organiza festivais sem poder oferecer cachê aos músicos, mas normalmente as bandas convidadas sabem que o festival é em prol da união entre a variedade artística da região, e que tocar lá é como que apoiar um festival que está começando. Mas há muitos festivais, que inclusive acontecem em cidades distantes, e normalmente as bandas q vão tocar se vêem, inclusive, obrigadas a fretar uma van pra poder ir até lá, e não receber cachê (e olha q existem festivais q financeiramente poderiam dar este apoio, mas mesmo assim não dão).” Demonstrando que a dificuldade não se limita a espaços de bares e pubs, ou seja, se você toca música própria está destinado a ralação!

Já vendo pelo lado empresarial, a assessoria do Vagão diz que: “No Vagão não é assim, mas é uma questão de rentabilidade... Um bar é um negócio, e tem que ser visto como tal! Muito embora toque bandas ele tem que dar lucro no final da noite, e nem todas as bandas tem a capacidade de dar lucro ao lugar, por isso algumas pessoas entendem que a música autoral tenha que ser colocado nesses dias..” e conclui: “tem que se dissociar, um bar não tem obrigação de dar espaços, ele e um negócio, a obrigação de dar espaço é do poder público, não da iniciativa privada, mesmo sendo bar de rock, ele é um negócio que visa lucro, se não o espaço fecha! Logo, é necessário que, para pagar bem a banda, ela tenha retorno de público, e o fato de você fazer música própria não quer dizer que você vai ter retorno de público, você deve pagar bem que lhe dá retorno e não o contrário.”

Isso é uma grande realidade! O poder público tem de incentivar mais, abrir mais eventos de artes e música, um RockParque de vez em quando não resolve o problema, são muitas bandas sedentas para pouca fonte. Casas de Cultura devem ceder mais espaços, tirar da mente aquela formalidade destinada apenas a espetáculos eruditos e rechear suas agendas com mais diversidade. Bruno Machado é bem taxativo: “O problema é que alguns acham que músico não é profissão. Por isso acham que estão fazendo um favor para as bandas, dando espaço e tudo mais, mas não é bem assim que funciona. Ninguém trabalha de graça e isso é uma vergonha!””...e tem outra, só pelo fato de ser autoral não quer dizer que a banda seja boa. Vemos bandas fazendo música mas na verdade nem sabem o que estão fazendo. Não adianta querer empurrar goela a baixo uma coisa que não funcione e não agrade. Tem de se profissionalizar e procurar o melhor direcionamento para o seu som e se garantir na proposta escolhida.” Conclui Marco Paim.

Mas vejam este fato curioso que aconteceu com Tiago Rech e sua banda, o Gringos e Troianos: “...foi quando, em setembro de 2008 o pessoal da MTV entrou em contato comigo por causa da musica "Sonhos". Os caras gostaram da musica, e nos selecionaram pra representar Caxias do Sul no programa MTV Procura, com a banda Cachorro Grande. Então, a idéia era mostrar como era a cena musical de Caxias e a gente tocando nossa musica. Eu fiquei 15 dias correndo atrás de alguém que abrisse as portas para fazermos essa filmagem e ninguém quis nem saber. Mesmo os caras da MTV vindo gravar com uma banda local de musica autoral, juntamente com uma banda de renome nacional, o que ia gerar uma mega divulgação, não só para o dono, como para a casa, que seria filmada e tal, e apareceria em rede nacional, ainda assim não quiseram abrir espaço. Então, eu realmente não sei o que dizer, é incrível... Mas enfim, assim sao as coisas em Caxias, pelo menos na minha visão.“ Claro que na época, os bares eram outros, hoje a coisa seria diferente, assim acreditamos.

Que há bandas covers de muita qualidade em Caxias isto é um fato, mas será que dá para dosar esta disputa de maneira leal e proporcional? Paganella tem uma opinião bem interessante neste sentido “no contexto das casas noturnas que tem espaço pra shows, teria que ter uma mudança radical, com um foco maior no trabalho das bandas e menor na festa em si. Hoje as bandas tocam na noite e são encaradas pelo contratante (e até mesmo pelo público às vezes) como apenas um algo a mais, uma fonte sonora que poderia ser substituída por um DJ ou o que quer que seja.” “É uma questão de proposta, o Vagão entende que trabalhando mais com música autoral acaba gerando cultura e oxigenando a cena da cidade! Mas isso é um trabalho conjunto, os músicos de Caxias precisam se profissionalizar, tanto em atitude quanto em questão de composições! Dá para dosar covers com autoral.” Diz o Vagão Bar. Breno Dalla expõe que “Normalmente bandas de rock autoral também tocam dois ou três covers mas, na minha opinião, isso já basta. Uma coisa que é um tanto irritante é ver que algumas bandas covers são montadas só por diversão e ganham espaço com maior velocidade q bandas autorais que estão há anos buscando apresentar seu trabalho por aí, com toda seriedade e sinceridade.”

Marco Paim diz “Uma banda cover tem muito mais chances de agradar o público pelo simples fato de tocar o que as pessoas querem ouvir. Uma banda cover toca muito mais vezes em uma cidade por conseguir renovar seu repertório em questão de semanas. Você toca neste sábado e 15 dias depois tem em seu repertório 3, 4 ou mais músicas novas para apresentar... é só tirar e executar! Uma banda de autoral já não tem o privilégio de tocar muitas vezes POR ANO numa mesma cidade por este motivo, já que o repertório de hoje será basicamente o mesmo daqui 15 dias ou 1 mês. O processo é outro, tem a composição, todo um trabalho envolvido. Bandas autorias não devem se limitar apenas a Caxias do Sul. Se quiser tocar muitas vezes no ano tem de ser em cidades diferentes, expandir horizontes!”

E a discriminação de estilos? Será que todos os segmentos musicais tem seu espaço garantido em Caxias do Sul? Andreson Aguzzoli ressalta que “Não adianta você chorar que tem uma banda de um estilo que não é popular, a conseqüência disso é ter um público diminuto. Eu sou baixista da Álgida, mas não vou reclamar que poucas pessoas conhecem o estilo que tocamos, afinal a escolha por ter uma banda de influência de pós punk foi nossa!” Isso falando de bandas com estilos bem exóticos, pelo menos para Caxias, mas o que dizer do rock mais pesado ou mesmo o heavy metal, e Marco Paim faz um contra-ponto ao dizer que “Não entendo certa postura de alguns bares... falam em lucros, em casa cheia, mas quando uma banda de heavy metal tenta marcar um show são barradas. Tudo bem, até entendo que alguns bares tem um direcionamento específico, mas dizer que uma banda de heavy metal não lota um bar é hipocrisia, essa desculpa não cola, pois shows de metal, se não colocados no final do mês é claro (como costuma ser) é garantia de lucro na noite. Em todos esses anos que toco metal dá para contar nos dedos as noites em que vi a “casa vazia”, e olha que já estou pegando uma segunda geração de público. Até parece medo dos “homens de preto” hahaha!” e Paganella emenda “Acho que o espaço que existe é tão ruim e tão pequeno que não faz muita diferença essa segmentação, pra te dizer a verdade eu nem sei se acho que isso exista, pelo menos pra mim nunca foi relevante. É ruim pra todo mundo igual, acho que até pra pagodeiro tá ruim porque nem pra isso deve ter espaço em Caxias pra tocar. Ainda acho que pra mudar a cena teria que ter uma demanda do público por uma casa que tivesse o foco nos shows como o Garagem Hermética faz em POA, e isso teria que ser economicamente viável também porque senão a casa não se sustenta. Ou seja, se realmente Caxias quer algo assim, teria que ser um movimento que partisse do público que acha que está carente deste espaço pra viabilizar a idéia.” e nessa mesma linha de pensamento Bruno Machado sustenta que “É normal que alguns bares tenham um direcionamento em relação aos estilos musicais, mas hoje em dia falta espaço para muitos estilos. Ao meu ver, pra quem tem uma banda de reggae ou de heavy metal por exemplo, fica bem complicado ter uma sequência de shows, não há lugares o suficiente para se tocar com frequência. Existem muitas bandas na cidade, sem falar que os bares dão bastante espaço para bandas de outras cidades também, então existe muita oferta pra poucos lugares.”

“Não tem como abrigar todos os estilos! Veja bem, voltamos ao problema de que um bar é um negocio! Não é um centro democratico de livre acesso, isso cabe ao poder público não a iniciativa privada! O dono do bar ou casa de show aposta naquilo que ele entende que vá lhe dar dinheiro! A coisa é super simples! Se as bandas se perguntarem: eu tenho capacidade de lotar o bar? e a resposta for não, não cabe ao proprietário investir seu dinheiro nessa banda e sim em que lhe dará retorno...” Conclui o Vagar Bar.

E a conclusão de tudo isso é que, não está fácil para ninguém! Existem muitos bares, pubs e boates, alguns com propostas bem específicas como o Mississipi Bar, que só toca blues, outros que preferem apenas o Som Brasil, mas os espaços ainda estão muito limitados para muitos estilos. Alguns lugares sempre vão ter uma preferência maior pelo cover visando o lucro e a perpetuação de seu negócio. Outros, como o Vagão Bar, ainda são um pouco mais ousados e propõem uma valorização do autoral, mas ainda com aquela seletiva de bandas também visando o capital sustentável. Isso não é só em Caxias do Sul, tem cidades piores, e não é culpa dos bares e sim de um governo que ainda tem um incentivo muito tímido para a arte e a cultura, e Caxias e o Brasil ainda está engatinhando neste sentido.

Uma idéia que já havíamos divulgado tempos atrás para uma maior popularidade do som da cidade é rodar bandas daqui no som mecânico. Por que o cover é mais aceito? Porque é familiar... No momento em que o Dj fizer um repertório 80% de som de bandas autorais de Caxias aquelas músicas ficarão mais familiares, por causa da execução freqüente da música... muitos até aprenderão a letra. É um meio de ajudar e que não custa nada. Outro dia estive em um bar e para minha surpresa ouvi duas músicas daqui,”A Dança” de Ton e Os Karas e “Cariñito” dos Cucastortas em outra ocasião. Mas teve o caso de você ouvir aquele som mecânico antes do show recheado de sons batidos da FM dos anos 80 e logo após, veja bem, a banda (cover) subir ao palco e executar as mesmas músicas, tudo de novo! Ninguém merece! E aí vem o exemplo que alguns comentaram de que a banda era apenas um “algo mais” na festa.

Já esteve pior é claro, temos relatos de músicos mais velhos que contam histórias mirabolantes para poder tocar pelo menos uma vez no ano. Aluguéis de pavilhões e clubes,além de bares sanguessugas e mercenários, sem contar do nível precário dos músicos.

Às vezes ouvimos falar em concorrência de bandas, mas isso é exatamente gerado por esta situação de “muita procura para pouca oferta”. O que devemos fazer?

Continuar trabalhando, não desistir dos objetivos e procurar alternativas externas, sair da cidade e encontrar o mundo além da serra gaúcha, só assim, firmando um nome, uma proposta sólida, você será reconhecido, esta é a grande realidade... ou toque cover...

Queremos agradecer a estes colaboradores que responderam ao questionário e deram as opiniões de grande valia para a nossa matéria. Infelizmente não deu para colocar tudo o que cada um respondeu, mas deu para ter uma idéia já que cada um tem uma banda com uma proposta diferente. Agradecemos ao Bar Vagão pelo seu ponto de vista empresarial, a coragem e a transparência em “dar a cara para bater” respondendo de forma bem sincera as questões.

Este foi o primeiro trabalho do HeavynRoll Messenger neste sentido, espero que tenham gostado da matéria, um pouco longa, mas que deixa bem claro a situação da cidade.

Obs: as questões foram mandadas para mais ou menos 30 músicos e 5 bares, mas apenas 8 músicos e 1 bar se manifestou... Esta é a união de Caxias do Sul!!!

Abraço e Sucesso a todos!!!

Fonte: heavynrollmessenger

Crônica dos cucas na Vila Amélia

Sábado, 7 de novembro de 2009. Dia chuvoso em Caxias do Sul, nada de velho ou de novo. Estávamos nós, cucastortas, empolgados com a idéia de nos apresentar para a comunidade da Vila Amélia, mais um bairro pobre em uma cidade rica. O entusiasmo era evidente apesar da chuva castigar os lares sem teto.

Chegamos na escola Nova Esperança no comando da Kombi Verde do nosso querido irmão Jander Bender. Lá já estava o baterista dos cucas, professor Adriano, vulgo Nano, em meio à criançada. As crianças!!! Sim, elas são demais!! Quando chegamos já vieram ao nosso encontro ajudar a carregar nossas coisas, nos chamando de tios (hahaha) e com perguntas do tipo "porque vocês tem barba?" ou "quantas tatuagens tu tem?". Hehehe, perguntas inusitadas que nos fazem pensar se tal ingenuidade reflete num gesto de carência e atenção. Com certeza esse ia ser um dia especial para elas, e para nós mais ainda.

Montamos nossas coisas num palco improvisado embaixo de um telhado de zinco, tudo pronto para tocar, quando entrou em cena a gurizada de um centro educativo da cidade, cantando e dançando. Confesso que me emocionei com o semblante deles, realizados em poderem mostrar sua arte e seu trabalho. Sem dúvida, mais gratificante é ver uma criança feliz do que qualquer sonho de consumo.

Chegou a hora de tocarmos. No primeiro acorde, a criançada começou um berredo ensurdecedor, nos sentimos como os Beatles em sua época pois até o som ficava abafado com a emoção e a gritaria da galerinha. Começamos o baile mirim com a canção "o povo dança", a molecada começa a dançar enlouquecidamente e a chuva veio com tudo nessa hora. Apesar do telhado de zinco, ficamos ensopados de tal forma que foi motivo de boas risadas da nossa parte e da galerinha. Porém não tinha chuva que parasse o som e a alegria da gurizada, tão contagiante e sincera que era.

Lá pela terceira canção, um menino chamado Giba, de 14 anos, extremamente nervoso na ocasião, foi chamado ao palco pra tocar com a gente. Ele tirou uma canção nossa chamada "Quando o sol nascer para todos", e estava disposto a tocar. Todos gritaram seu nome em coro e Giba sobe ao palco, pega a guitarra de Painca e começamos o som. Giba me impressionou pois tocou bem demais, com direito a solo e tudo!!!! Foi a primeira vez dele em um palco, foi muito bom, mesmo. O guri saiu realizado, com um sorriso que não cabia em sua cara.

Mais algumas músicas e finalizamos nossa apresentação, molhados de chuva e de alegria.

Esta pequena crônica tem como maior expoente o prazer que foi tocar para uma comunidade carente, em especial para as crianças. A maioria delas nunca tinha visto uma guitarra, dirá um show ao vivo. A emoção, a gritaria, a cara daquelas crianças nos olhando com olhares brilhantes, isso me tocou profundamente e me fez crer que estamos no caminho certo, que é estar com o povo e ir até ele quando longe, pois é o povo das periferias que tem a maior carência de cultura e lazer, sem contar as carências econômicas e sociais. De forma modesta, cremos estar contribuindo para que mais uma criança possa sorrir.

Agradecemos profundamente a oportunidade, hoje somos mais maduros que ontem e mais cientes de nosso objetivo enquanto músicos e artistas.

Viva as crianças!!!!!

Sami

Carta de solidariedade a Federação Anarquista Gaúcha

Viemos através deste manifestar nossa solidariedade a Federação Anarquista Gaúcha em repúdio a invasão e apreensão de materiais e equipamentos de sua sede em Porto Alegre operada pela polícia civil na tarde de quinta-feira, 29 de outubro, e a abertura de processo criminal por injúria, calúnia e difamação a mando da governadora Yeda Crusius e expedido pelo Ministério Público Estadual. Este ato repressivo constitui cerceamento da liberdade de expressão e o direito de reunião resultando em censura política e intento de criminalização desta organização.

Já é notório para o Brasil e também em nível internacional a política de criminalização da pobreza e do protesto que é operada por este governo. Repressão e processos judiciais sobre o Movimento Sem Terra, categorias em greve, dirigentes sindicais e mobilizações populares que fazem oposição e denúncia aos esquemas de corrupção instalados nos altos escalões do governo e das políticas do Banco Mundial que desmontam com os serviços públicos e atacam direitos dos trabalhadores. A pobreza da periferia das grandes cidades também é alvo desta política truculenta.

Com esta carta queremos pesar as justas reivindicações de fim aos processos judiciais e a devolução de todos os bens apreendidos da FAG como a garantia das liberdades democráticas que foram violadas pelo Estado.

Ouvidoria do Estado do Rio Grande do Sul - Brasil

Correio: ouvidoria@gg.rs.gov.br

Fax: (51) 3210.4522

Procuradoria Geral de Justiça - Ministério Público Estadual

Correio: pgj@mp.rs.gov.br

Fax: (51) 32253288

Gabinete do Ministro da Justiça ? Governo Federal

Site: www.mj.gov.br

Fax: (61) 20259556

Mais informações: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2009/10/457506.shtml

Um poema pra vós

Acordar com os pássaros

passará a ama-los intensamente

Tensiona as cordas do vento

que vendo como se canta

se encanta com o próprio tento

A cor que se dá ao passá-los

tem passos brilhantes

como olhares de furtar a cor

Embeba-se um pouco do mundo

muda-se de pouco em pouco

o tanto de tudo que for

Levo meu corpo em meio

ambiente - se no farfalhar das folhas-

trago foias,foias e mais foias,

no meu borso tá cheio delas, chego a intupi as caia

e no meu sapato inté areia tem-

ponho em relevo o resto

e o que resta

queda - se fazendo jeito.

Empresto ,então, à tensão meu gesto

enquanto pássaros passam cantando

pras cordas tensionadas do vento

Pa-inca

Dois quintos dos infernos

Durante o século 18, o Brasil Colônia pagava um alto tributo para seu colonizador, Portugal. Esse tributo incidia sobre tudo o que fosse produzido em nosso país e correspondia a 20% (ou seja, 1/5) da produção. Essa taxação altíssima e absurda era chamada de "O Quinto".

Esse imposto recaía principalmente sobre a nossa produção de ouro. O "Quinto" era tão odiado pelos brasileiros, que foi apelidado de "O Quinto dos Infernos". A Coroa Portuguesa quis, em determinado momento, cobrar os "quintos atrasados" de uma única vez, no episódio conhecido como "Derrama".

Isso revoltou a população, gerando o incidente chamado de "Inconfidência Mineira", que teve seu ponto culminante na prisão e julgamento de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário - IBPT, a carga tributária brasileira deverá chegar ao final deste ano de 2009 a 38% ou praticamente 2/5 (dois quintos) de nossa produção. Ou seja, a carga tributária que nos aflige é praticamente o dobro daquela exigida por Portugal à época da Inconfidência Mineira, o que significa que pagamos hoje literalmente "dois quintos dos infernos" de impostos...

Para que? Para sustentar a corrupção, o PAC, o mensalão, o Senado com sua legião de "diretores", a festa das passagens, o bacanal (literalmente) com o dinheiro público, as comissões e jetons, a farra familiar no executivo. Nosso dinheiro é confiscado no dobro do valor do "quinto dos infernos" para sustentar esta corja, que nos custa (já feitas as atualizações) o dobro do que custava toda a Corte Portuguesa.

E pensar que Tiradentes foi enforcado porque se insurgiu contra a metade dos impostos que pagamos atualmente!

Fonte desconhecida

Devaneio de José Maria Boleadera

Libertador é a nota tocada com o coração. Palavras nem sempre são capazes de expressar sentimentos na tônica da vida. O que sentimos pode estar expresso em um olhar, num gesto, ou apenas em um silêncio perturbador. Silêncio habitado por seres apaixonados...

Os corações pedem por um transplante, para recordar o valor das coisas simples. No tempo do artifício e da mentira, onde a felicidade é enlatada e a liberdade um produto, os espíritos trancam-se em suas casas com medo de abrir a janela. Porque não cantamos mais serenatas, ou escrevemos cartas perfumadas, ou apenas lançamos um olhar carinhoso para aquele mendigo de pés descalços?

É preciso um coração novo. Aquele que bata com mais força, como a nota tocada por um espírito solitário.

Acredito na arte como elemento libertador. Rompo com minha solidão, que insiste em estar ao meu lado, para sentir a ternura de um coro apaixonado, de um rabisco mal feito, de um sorriso satisfeito.

Só peço um gesto de carinho. Cansado de estar só. Farto de estar farto.

Sempre fui apaixonado pelos apaixonados. Aqueles que hoje convencionou-se chamar de loucos. Mas loucos são aqueles que fazem as guerras, que mancham a terra, que poluem o ar.

Da loucura do poeta renasce a esperança. Esperança de que no fim da estrada exista um feixe de luz, para quando olhar para trás estar certo de que toda loucura não foi em vão.

Sou um louco apaixonado pelas coisas simples, cantor de coplas de amor e sereno nas horas vagas.

Palavras para as pessoas sinceras e que ainda acreditam na vida, vindo de um coração menos solitário que antes.

José Maria Boleadera

Matança no Peru. Indígenas protestavam contra o Tratado do Livre Comércio

O número de mortes subiu para mais de cinqüenta após a violenta repressão policial contra um piquete de nativos amazônicos que bloquearam uma rodovia na selva em protesto contra uma série de leis que implementam o Tratado do Livre Comércio (TLC) com os Estados Unidos e que afetam as suas comunidades.

A reportagem é de Carlos Noriega e publicada pelo Página/12, 07-06-2009. A tradução é do Cepat.

O governo confirmou a morte de 22 policiais, enquanto os indígenas mortos seriam, segundo diferentes versões vindas da região do massacre, mas de trinta, ainda que o governo apenas tenha admitido a existência de nove vítimas civis. Nesse sábado se reconheceu que nove policiais morreram durante a ocupação de uma estação da empresa petrolífera estatal Petro Peru realizada na quinta por um grupo de indígenas.

Outros 22 policiais feito reféns foram liberados e sete permanecem desaparecidos. Os feridos são mais de 150 e os presos chegam a uma centena. O líder dos indígenas, Alberto Pizango, passou para a clandestinidade logo após a emissão de uma ordem de prisão. Especulou-se que teria viajado para Bolívia, mas dirigentes da organização indígena garantiram que Pizango, acusado de rebelição e incitação da violência, permanecia em Lima. Em Bagua, lugar da matança, se adotou um toque de recolher entre as três da tarde e as seis da manhã. As comunidades indígenas denunciaram o governo de Alan García à Corte Interamericana de Direitos Humanos.

Os indígenas amazônicos, que chegam a 350 mil, se levantaram contra o governo faz dois meses exigindo a derrogação de novas leis ditadas pelo governo em março em cumprimento a implementação do TLC com os Estados Unidos. Estas leis facilitam a entrada na Amazonia de transnacionais petroleiras e mineradoras e de empresas dedicadas a produção de biocombustíveis. As comunidades nativas reagiram contra o pacote legal por considerar que afetam os direitos sobre as suas terras e ameaçam o ecossistema da Amazonia, onde vivem.

Os indígenas acusam o governo de ter se decidido por essas leis sem consultas, como exige o Convênio 169 da OIT, que obriga às comunidades nativas serem consultadas antes da definição de uma norma legal que venha afetá-los. Esta omissão transforma as leis em inconstitucionais. O governo admitiu a omissão, mas insiste em manter a vigência das leis, apesar de uma comissão no Congresso e a Defensoria do Povo terem se pronunciado por sua incostitucionalidade. O governo destaca que o não cumprimento dessas normas legais coloca em risco o TLC com os Estados Unidos e decidiu mantê-las a ferro e fogo. A negativa do governo em derrogar as leis tornou impossível o diálogo com os indígenas e o conflito foi crescendo até que se desencadeou o massacre, após o governo ordenar a polícia a repressão aos indígenas.

“Se estas leis se mantém, em curto prazo, as terras amazônicas passarão para mãos das corporações petroleiras, mineradoras, de água, madeireiras, produtoras de bicombustíveis, e a médio prazo, a Amazônia estará destruída e as populações indígenas convertidas em proletárias. A luta contra estas leis, é uma luta pela sobrevivência das comunidades amazônicas e de sua cultura”, disse ao Página/12, Roger Rumrrill, um dos mais importantes pesquisadores da Amazionia peruana.

Página/12, conversou por telefone com Incam Santiac, líder indígena da etnia Awarun, no limite da zona fronteiriça com o Equador, que esteva presente na violenta repressão contra os indígenas na Curva do Diabo. “Nós estávamos dormindo na rodovia, quando a polícia nos atacou. Eram as cinco e meia da manhã. Primeiro, com gás lacrimogêneo e quando viram que não podiam nos tirar dali, começaram a disparar. Dispararam no corpo, para matar. Atiravam de um helicóptero e da mata. Um irmão caiu morto ao meu lado. Muitos caíram com as balas. O ataque durou até as duas da tarde, quando conseguimos regressar a Bagua. O governo mente quando nos acusa de ter atirado contra a polícia. Nós tínhamos apenas lanças e flechas. Os policiais devem ter sidos mortos por fogo cruzado. Até agora não nos deixam recolher os nossos irmãos mortos, que continuam estirados na rodovia. Há mais de cem desaparecidos”, relatou Santiac desde Bagua. O líder indígena anuncia que continuarão em sua luta contra o go verno e as transnacionais que invadem as suas terras.


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